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-Meu primeiro desejo

          Sempre que o sentimento natalino começa cair sobre os tetos de cada cidadão desse planeta, fico imaginando o que eles desejam para o ano seguinte.

 

          Algumas pessoas são mais organizadas e mantêm seus desejos na ponta do lápis o ano inteiro. Mas outras só exercitam seus neurônios após o Natal. Eu arrisco dizer que no Brasil, as pessoas começam a definir seus objetivos só depois do carnaval, pois segundo o nosso costume, "o ano só começa depois do carnaval". Isso é um absurdo, mas para muita gente é a mais pura realidade.

 

          Quase todos os canais de televisão disputam audiência com programas premonitórios onde gurus, cartomantes, astrólogos, numerólogos, mães e pais de santo, cada um com a sua filosofia, arriscam palpites sobre os acontecimentos dos próximos doze meses. Não sei porquê ainda perco tempo ouvindo previsões sobre desastres e sofrimento. Talvez queira, no final do ano, conferir o que os gurus previram e o que realmente aconteceu, numa vã tentativa de mostrar para mim mesmo, que tudo não passa de um grande teatro onde cada um apresenta a sua personagem.

 

          Eu, por exemplo, começo minhas compras de natal já no final de outubro e durante o mês de novembro, para fugir de tumultos, filas e shoppings com estacionamentos congestionados. É um horror! Nem mesmo com uma boa preparação mental escaparia de ser uma presa fácil na primeira disputa de uma vaga no estacionamento do shopping. Na verdade só estou me precavendo do estresse e dos perigos que isso me levaria.

 

          Natal é um mês em que todos falam de "espírito natalino", ou seja, confraternização, momento de esquecer as birras, os confrontos, as diferenças e então poder levantar um brinde àquele que nos deixou uma mensagem de amor universal. Mas acredito que Ele reprova o comportamento de muitos, principalmente de quem conduz seu veículo de forma agressiva em direção às praias, pousadas e hotéis, especialmente às vésperas de Natal, Ano Novo e Carnaval, quando as estradas são transformadas em autênticas pistas de destruição.

 

          Começo a levar tudo isto mais a sério realizando minhas viagens um ou dois dias antes destas datas e retornando um ou dois dias depois. E com um desejo do mais simples e concreto que há: chegar em casa sem sofrer nenhum acidente.

 

          É triste e ao mesmo tempo espantoso ver como tantas pessoas preferem correr o risco de morrer ou, pior ainda, de matar para não se atrasarem cinco minutos. Eu mesmo assisti vários acidentes acontecendo na minha frente que, graças a Deus, não fui envolvido. Também pude perceber a quantidade de veículos parados no acostamento das estradas com pneus estourados por causa de buracos na pista e pela alta velocidade com que os veículos eram conduzidos.

          O mais ridículo de tudo isso é que uma festa onde paramos para confraternizar e divertir, se transforma em tragédia. Essas pessoas que se arriscam morrer ou matar no trânsito, são as mesmas que passaram o ano inteiro sorrindo para os amigos e colegas de trabalho, enviando-lhes e-mails e cartões de boas festas, apregoando o espírito de solidariedade e de harmonia do Natal. Mas basta entrar em seus carros que desaparecem os sorrisos e começam os insultos porque o indivíduo que está à frente perdeu meio segundo no semáforo ou diminuiu a velocidade porque está dirigindo com mais cuidado. É espantoso como instantaneamente desaparece o espírito de solidariedade e não facilitam a passagem aos outros condutores.

 

          Ninguém conseguirá percorrer o mundo em algumas horas nem sofrerá nenhum dano profundo se perder alguns minutos em obediência às leis de trânsito e, principalmente, à lei da vida. O presente mais importante que algum dia você recebeu, foi a vida. E esta prenda não se pode trocar no dia seguinte porque está curta, apertada ou porque simplesmente não gosta da cor. É uma dávida única na existência de cada um de nós. Quando a perdemos, acabou. Seja de um lado ou de outro, deixamos pessoas sofrendo por causa da nossa inconseqüência. E o pior é que são pessoas que amamos mutuamente.

 

          Preocupado que vou ter que sair de casa na passagem de ano e no carnaval (ou em todas as minhas viagens), meu primeiro desejo ao entrar no carro é: "chegar em casa inteiro". O resto, no seu devido tempo, virá.


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