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- Quando o Cérebro é o Vilão - parte I

 

Fiquei de responder duas perguntas que me fizeram a respeito do dinheiro, que por ser um assunto bastante polêmico, resolvi explanar mais as respostas. É preciso compreender alguns aspectos que nos levam a agir de uma determinada maneira, fazendo-nos repetir as mesmas ações limitantes, que nos faz perguntar depois: "Por que eu fiz aquilo?".
 
Têm pessoas que detestam ler textos longos, mas eu acho que a única maneira delas se destacarem mais rapidamente é através da leitura. Então peço para chegar até o fim desse texto, que tenho certeza não será curto, porque vou me estender nas explicações.
 
O antropólogo Gregory Bateson (1904-1980) defende a idéia de que nossos aprendizados obedecem a uma determinada hierarquia, à qual chamou de Níveis Lógicos de Aprendizado. Assim, mudanças geradas em um nível podem ou não afetar outros níveis dependendo de sua construção hierárquica. Bateson notou que conflitos ou confusão nos níveis lógicos frequentemente causam problemas.
 
 
“Não se consegue resolver um problema no mesmo nível em que foi criado. É necessário subir a um nível mais alto”. (Albert Einstein).
 
 
Posteriormente, o Trainer em PNL (Programação Neurolinguística) Robert Dilts, um dos principais responsáveis pela difusão da PNL no mundo e que teve o privilégio de ser aluno de Bateson, modelou sua estratégia adaptando-a aos pressupostos da PNL, criando o que chamou de Níveis Neurológicos. Assim, uma mudança hierárquica em um nível superior irá necessariamente trazer mudanças nos níveis inferiores, porém uma mudança em um nível inferior pode ou não trazer mudanças em níveis superiores.
 
Os níveis neurológicos de R. Dilts, são:
 
a)     Nível Espiritual
b)    Nível de Identidade
c)     Nível de Crenças e Valores
d)    Nível de Capacidades
e)     Nível de Comportamento
f)      Nível de Ambientes
 
Em resumo seria o mesmo que dizer, de baixo para cima: O tipo de ambiente que deseja; como deseja agir; habilidades que deseja; atitudes e crenças que deseja adotar e o tipo de pessoa que deseja ser.
 
Abaixo transcrevo didaticamente os níveis acima referidos, para facilitar a compreensão do leitor, onde faço a inclusão de alguns aspectos na área corporativa, para ressaltar quando a empresa trabalha perfeitamente alinhada com sua Visão, Missão e Valores perfeitamente, é chamada de “Empresa Terapêutica”.
 
a)   Nível Espiritual
 
Considera-se como espiritual os sistemas dos quais fazemos parte, compreendendo as pessoas que são significativas para nós, família e também crenças religiosas. Nossa relação com o espiritual está ligada a sentimentos de pertinência e aceitação que direciona nossos objetivos. Crenças nesse nível afetam todos os outros níveis. Por exemplo: A pessoa que acredita que “é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no céu”, provavelmente terá sérias dificuldades em gerir bens materiais e encontrará inúmeros problemas para a manutenção do dinheiro que conseguir amealhar.
 
O nível espiritual significa o “seu” lugar no mundo, a conexão com um sistema maior do qual você faz parte, é a visão e o propósito perfeitamente alinhados.
 
Exemplos de visão nas empresas:
 
Visão Petrobrás: “Seremos uma das cinco maiores empresas integradas de energia do mundo e a preferida pelos nossos públicos de interesse”. (observe que a visão da Petrobrás não está completamente alinhada com o sistema, quando ela afirma que “seremos” – nível de identidade).
 
Visão Microsoft: “Um computador em cada lar”.
 
Visão Disney: “Criar um mundo onde todos possam se sentir criança”.
 
            Na empresa, a Visão significa a atenção ao sistema do qual as pessoas fazem parte, que pode ser expressada através de missões ecológicas, cooperação e contribuição para o sistema como um todo.
 
            O Gerente que ocupa o Nível Espiritual é conhecido como “Aquele que Desperta”, o “Transcendental”. Ele vai além dos níveis posteriores para incluir à visão, missão e espírito. Foca as experiências que emergem o melhor de todos em termos de compreensão, de amor e espiritualidade.
 
Exemplos de visão:
 
 “Quero deixar um legado positivo para meus filhos”; “É importante buscar soluções para o aquecimento global”; “Ao jogar bitucas de cigarro no lixo, estou construindo um mundo melhor”; “Se eu faço parte do mundo, ao melhorar um comportamento meu, estarei construindo uma sociedade melhor”.
 
Afirmações negativas neste nível: “Não posso deixar nada aos meus filhos porque sou pobre” (nem mesmo bons conselhos?); “O mundo é de Deus, portanto é problema dele” (por acaso você não mora nele?); “Uma bituca jogada no chão não fará nenhuma diferença” (quantas bitucas você joga no chão durante toda a vida); “O que adianta eu fazer se o meu vizinho não faz?” (quer dizer que você está atrelado ao seu vizinho?).
 
 
b) Nível de Identidade
 
É a resposta à pergunta “Quem é você?”, uma identidade é formada por um conjunto de crenças e valores, é sustentada por estruturas complexas de crenças.
 
Quando se pergunta a alguém “quem é você”, frequentemente a resposta tem a ver com a profissão, confunde sistema hierárquico com a hierarquia dos níveis neurológicos. Então passa a viver a profissão de tal maneira que acaba perdendo a sua identidade e tudo gira em torno da empresa e do trabalho. Os conflitos são percebidos quando a pessoa troca a sua identidade por um estado, crença ou valor.
 
O Nível de Identidade representa a missão e senso do EU, sãos o conjunto de crenças e valores essenciais que definem você e a sua missão de vida.
 
Na empresa é a própria declaração da sua Missão integrada à natureza do seu negócio. Quando a empresa define a sua identidade, ela dá aos seus colaboradores o sentido de pertencer.
 
O Gerente que ocupa o Nível de Identidade é também conhecido como Patrocinador ou Sponsor. Foca o desenvolvimento de identidade e valores fundamentais da organização. Seu discurso sempre enaltece o colaborador: “Você é valioso para nossa empresa”, “Você pertence a esse lugar”. O Gerente Patrocinador jamais dirá ao seu colaborador algo que está relacionado com a sua capacidade, em nível de identidade. Por exemplo, quando o gestor diz “Você é incompetente”, pode criar inconscientemente uma forte sensação de inutilidade para a pessoa. Ela não “é” a incompetência. Ela tem, deficiência numa determinada área que pode ser trabalhada e melhorada.
 
Afirmações conflitantes: “Eu sou saudável”; “Eu sou nervoso”; “Eu sou médico”.
 
Na verdade, quando se diz “eu sou nervoso” não significa que você é isso, pois “nervoso” é um estado. O correto é: “Eu estou nervoso”.
 
 
c)    Nível de Crenças e Valores
 
É o que acredita ser a verdade, é o que importa, é a razão de agir da maneira que agimos. A crença é um aprendizado ocorrido por causa e efeito, ela que dá permissão ou não para que capacidades e comportamentos ocorram.
 
Já os valores são crenças específicas que buscamos honrar, organizados a partir de um conjunto de idéias.
 
A pessoa que tem conflitos nesse nível é bastante resistente à mudanças, pois dificilmente aceitará críticas a respeito do que acredita ou questionar valores que considera fundamentais.
 
Na empresa significa a motivação para realizar a Missão, de acordo com a Visão estabelecida.
 
O Gerente que ocupa o Nível de Crenças e Valores, é uma espécie de Mentor que leva sua organização em direção a novas descobertas e de competências inconscientes e para superação de resistências e interferências internas e externas, porque acredita sempre no potencial de seu colaborador e em suas boas intenções.
 
As pessoas normalmente levam dentro de si seus “mentores internos” como referência de conselheiros para o resto da vida, para guiá-las em várias situações.
 
Exemplos de valores são: honestidade, justiça, sinceridade, cumplicidade etc. Valores são necessariamente abstratos e é a partir deles que organizamos nossa estrutura de crenças.
 
Já que estamos falando deste nível (crenças e valores), vou aproveitar para inserir aqui uma explanação sobre como a pessoa pensa a respeito do dinheiro, ou, ainda, como o dinheiro vê a pessoa.
 
            Ter a crença que “ o dinheiro é capaz de resolver problemas”, certamente a pessoa encontrará problemas para resolver, pois são exatamente isto que ela deseja afastar. A pressuposição de que “a energia vai para onde está a atenção”, sugere que todo o esforço empreendido por esta pessoa é o de afastar problemas, isto é, ela está afirmando o que não quer: “problemas”. E o que ela quer realmente? Quando ela conseguir responder essa pergunta, perceberá que o problema pode ser resolvido de outra maneira que não seja só com o dinheiro. Caso contrário ela só está agindo no automático e pelo afastamento do dinheiro.
 
            Vou explicar melhor o que significa “afastamento”.
 
            A pessoa quer dinheiro para resolver problemas, então tudo o que ela não quer são problemas, porque o dinheiro ela quer, certo? Mas perceba que a sua atenção está focada nos problemas e que a solução virá com dinheiro.
 
A motivação negativa também é capaz de impulsionar a pessoa no sentido de alcançar objetivos. Neste caso, impulsionada pela motivação negativa, o sistema interno proporciona um ganho financeiro,  pois tudo o que o sistema interno quer é satisfazê-la. Uma das funções do sistema interno também o de protegê-la, e já que problemas a aborrecem e a falta de dinheiro a aborrece, ele (sistema) irá arrumar certa quantia em dinheiro para agradá-la, mas ao conseguir, ela começa a se afastar dos problemas, porque eles vão se revolvendo. E vai se afastando, vai se afastando, vai se afastando até esquecer o motivo principal que era o dinheiro. Então o cérebro, que age no automático e que, por pressuposição, pende sempre para o fracasso, irá sabotá-la, fazendo-a perder o pouco que conseguiu, retornando para o início do processo. Começa um ciclo de repetição: a pessoa ganha dinheiro e perde tudo ou nem sabe com o que gastou.
 
           Estatísticas americanas apontam que 90% das pessoas que ganharam grandes somas inesperadas de dinheiro, perderam tudo em até 2 anos. Outras chegaram a perder, inclusive, o que tinham antes do prêmio. Essas pessoas, certamente têm conflitos na área financeira e nem sabem que estão agindo reféns da hierarquia do seu aprendizado, muitas vezes calcado em administração de pequenas somas e crenças limitantes sobre o dinheiro e sobre valores que não são congruentes com a sua identidade. Perdem tudo e voltam para a sua realidade que é o de administrar, no máximo, o salário mínimo que ganhavam antes do prêmio.
 
            Mudar crenças e valores é muito difícil porque a pessoa não aceita críticas e fica completamente resistente à mudanças. Mudar uma crença não é uma tarefa simples. Não basta substituir uma crença limitante por uma crença facilitadora, afirmando que “Todo problema (desafio) tem solução, se não tem solução é porque não é problema (desafio)” ou “Posso resolver isso de outra forma”, “O dinheiro tem a propriedade de me dar prazer, liberdade etc...” se não forem congruentes com os valores da pessoa. É necessário ir mais profundamente na questão, muitas vezes é preciso contar com a ajuda de um profissional capacitado e com a devida experiência para tratar esta questão.
 
            Ao pensar no dinheiro para resolver problemas, a intenção (foco e energia) está nos problemas. Logo, o cérebro vai tratar de arrumar um milhão de problemas para a pessoa resolver. Mas ela conseguirá dinheiro suficiente para resolvê-los? Por outro lado, ao alinhar o sistema de crenças e valores a respeito do dinheiro, a pessoa deixa de agir no automático e começa a ir ao encontro de seus objetivos (solução), seja ele envolvendo dinheiro ou não. A solução nem sempre depende exclusivamente de dinheiro. A solução pode vir na forma de fechamento de um excelente negócio, mudando para um emprego melhor, pela premiação de algo inesperado, pela doação de alguém, enfim, a solução está sempre no que chamo de “campo das possibilidades infinitas”.
 
Quanto mais rápido a pessoa perceber o teor das suas ações e dos seus pensamentos, mais rapidamente buscará soluções, alinhando seus medos, crenças, valores etc a respeito de qualquer coisa, principalmente sobre a área financeira.
 
A pessoa que tem medo de ser assaltada a ponto de não querer mais sair de casa, podendo, inclusive, desenvolver síndrome do pânico, vai transformar sua vida num verdadeiro inferno (afastamento = não vou mais sair de casa = tenho medo de ser assaltada). Esta possibilidade existe, é real. Mesmo assim ela decide seguir adiante porque a motivação de sobrevivência em outras áreas é maior do que o medo do assaltante. Temporariamente ela tira o foco do assalto e coloca a atenção em outra coisa, até aparecer o programa do Datena na televisão exposta numa vitrine qualquer, quando então ela puxa a bolsa para mais perto de si, começa a olhar para os lados se assusta com cada esbarrão de pessoas que estão no mesmo fluxo que ela.
 
A princípio acredita-se que tudo o que ela necessita é de coragem, só que é o outro extremo e os extremos são perigosos. O equilíbrio é o melhor caminho. Quando ela alinha o medo, o sistema interno fará com que ela siga em frente, de maneira equilibrada, apesar do medo. Ela ficará atenta ao que acontece à sua volta, sem, no entanto, entrar em pânico.
 
Exemplos de afirmações conflitantes são: “Se tomar chá preto à noite não durmo”; “Manga com leite faz mal”; “Quero sucesso em minha vida porque mereço”; “Só ganha muito dinheiro quem é desonesto”.
 
Aproveitando o tema, vou responder a segunda questão: porque a pessoa, mesmo não tendo dinheiro, continua consumindo. É possível imaginar como ela ordena seus pensamentos antes de sair comprando tudo o que vê? O que ela quer é exatamente o que está comprando ou o que ela está comprando vai gerar um estado de prazer e realização?
 
Segundo estatísticas citadas por Martin Lindstrom, autor do livro A lógica do Consumo, só no ano de 2005 um novo produto foi lançado a cada 3 minutos em nosso planeta. O brasileiro é bombardeado por cerca de 2 milhões de comerciais de TV ao longo de 65 anos de vida, é o mesmo que assistir televisão por oito horas, todos os dias da semana, durante seis anos. Tente se lembrar de três comerciais que viu ontem – você não vai conseguir. Somos expostos a tanto apelo que a memória esvazia. Mas, se o comercial é embutido num contexto relevante para você, aí é diferente. É o que os especialistas deram o nome de Neuromarketing, responsável pelo estudo dos sinais não conscientes que nos afetam, sinais que às vezes não expressamos verbalmente.
 
Em 1987 foi lançado o filme (comercial) "O Primeiro Sutiã Valizere" o qual foi produzido pela Espiral Filmes, onde trabalhei durante 5 anos. Tive a oportunidade assistir as filmagens e montagem (ainda na ultrapassada Moviola), o qual o leitor poderá vê-lo através desse link (http://www.youtube.com/watch?v=JlIAtOVY4qo&feature=player_embedded). Até hoje quando se pergunta mesmo a quem não teve a oportunidade de assisti-lo na época, é bem capaz de falar a respeito. Certamente, alguma coisa nesse filme tocaram as pessoas profundamente, embora elas não tenham consciência de terem sido afetadas.
 
Estou falando aqui da psicologia do comportamento: quando estou com disposição certa para algo? Que tipo de emoções gero em meu cérebro? [... continua]

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